O silêncio das salas de anatomia da UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais guarda histórias que não terminam com a morte. Em 2025, a instituição bateu o recorde histórico de doações de corpos para ensino e pesquisa. O gesto, ainda cercado de tabus, passou a ganhar novos significados entre famílias e doadores em Minas Gerais. No último ano, 27 corpos chegaram à universidade por meio de doação, número superior ao registrado em 2024, quando houve 21 casos.
Além disso, o interesse pelo cadastro prévio também cresceu. Ao todo, 199 pessoas formalizaram o desejo de doar o corpo após a morte, um aumento de 16,3% em relação ao ano anterior. Os números indicam mais do que uma tendência estatística. Eles revelam, sobretudo, uma mudança gradual de percepção social. Segundo a professora Pollyana Costa, do Departamento de Anatomia e Imagem da Faculdade de Medicina da UFMG e coordenadora do programa Vida Após a Vida, o avanço resulta diretamente da ampliação do debate público sobre o tema. Os corpos doados à UFMG cumprem papel central na formação de futuros médicos.
Além das aulas de anatomia, eles permitem treinamentos avançados e aprimoramento de técnicas cirúrgicas. Com isso, o aprendizado se torna mais preciso e conectado à prática profissional. A legislação brasileira assegura o direito à doação do corpo para fins científicos. O Código Civil, em seu artigo 14, autoriza expressamente a disposição gratuita do próprio corpo após a morte, com objetivos científicos ou altruísticos. Além disso, a lei garante que o doador pode revogar a decisão a qualquer momento, mesmo depois de realizar o cadastro. O tempo de utilização do corpo varia conforme a técnica de conservação.
Em alguns casos, esse período ultrapassa dez anos. Ao final, a universidade realiza a destinação digna dos restos mortais, com sepultamento ou cremação, conforme os protocolos institucionais. A UFMG criou o programa Vida Após a Vida em 1999, após o pedido de uma mulher em estado terminal que desejava doar o corpo à universidade. Até então, a instituição havia recebido apenas uma doação semelhante, dez anos antes. A partir desse episódio, a faculdade estruturou um programa permanente.
Qualquer pessoa maior de 18 anos pode se cadastrar como doadora. Menores de idade também podem doar, desde que a família autorize. Não há contraindicações médicas prévias. Interessados em informações detalhadas sobre o projeto devem entrar em contato com a Faculdade de Medicina da UFMG pelo (31) 3409-9739.


